Vim com um livro de um autor português para a viagem. Não li pois a cultura inútil da
TV a bordo no voo TAP me consumiu. Chegando aqui, lógico, fui conferir as livrarias. E como escolher? Tirando os conhecidos no Brasil, há dezenas de boas promessas literárias e, pelas capas, compraria vários, algo impossível. Para matar a primeira sede, cedi ao apelo de Budapeste. Uma edição de bolso, da Leya, por meio da qual passei a admirar o
Chico Buarque escritor. Deixei para os dias seguintes a tarefa de "perceber" um pouco de literatura portuguesa contemporânea. Os de sobrenome
Tavares (não parentes!) estão em alta. Há o
Gonçalo, a quem já admiro "imenso" desde certo tempo. Além, a grande onda é um novo texto de
Miguel Sousa Tavares, jornalista, propagandeado aos quatro ventos. Me pareceu interessante. Para começar, de fato, minha opção foi por este inusitado título:
“Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas”,
o terceiro livro de
Ricardo Adolfo, nascido em Luanda, com sérias críticas positivas. Tem sido uma boa leitura. Pausada agora em função de leituras para a aula que inicia nesta quinta. Retomo no final de semana.

Na busca por referências, decidi pela imprensa especializada e devorei hoje a edição deste mês da revista
Ler. Capa:
Miguel de Sousa Tavares, em irônica e interessante entrevista sobre sua escrita, livros e histórias de vida. E uma baita alfinetada em alguns conterrâneos. Deve ser uma das próximas leituras, apesar da preferência pelos não lidos do Gonçalo que devem entrar na fila. Mas, por hora, sigo no
Ricardo Adolfo.
A Revista (
Ler está no
Twitter) traz bons colunistas, entre eles a escritora
Inês Pedrosa, em uma reflexão sobre a falta de interesse em promover a literatura surgida das mãos femininas. Mas o que me fez começar esse texto foi uma coluna que está ao final da revista. No rodapé de uma das últimas páginas da publicação aparece um texto bem-humorado sobre os compradores de livros e a incompreensão da qual muitos são vítimas. Antes de reproduzir, um aparte. O “saco do Minipreço” a que se refere o texto é a sacolinha de uma das mais populares redes de supermercado por aqui, junto com o
Pingo-doce. Ambos permitem aos estudantes bolsistas viver e comer muito bem por muito pouco. Mas voltando ao papo sobre literatura, o texto, assinado por
Nuno Costa Santos, na coluna
Provedor dos Leitores da
Ler número 83:
O que é que trazes aí no saco do Minipreço?
Livros. Trago livros. Algum problema? Sim, o leitor vive hoje uma espécie de melancólica clandestinidade. Falo do leitor que gosta, que tem o hábito e a extravagância de comprar livros - não o leitor que espreita obras alheias no metro da Avenida. Aquela cada vez mais rara figura que passa pelas livrarias como quem passa pelo café da esquina e que, uma, duas vezes por mês, traz uns volumezinhos para casa - de livralhada recente ou antiga. Porque lhe apetece. Porque alguém um dia vai ficar com eles. Porque é importante subsidiar os escribas e as suas sogras. Mas o leitor, esse leitor, chega aos seus aposentos e tem muitas vezes de apanhar com a frase indignada no cultivado focinho: «Tantos livros aí para ler! Porque é que andas sempre a comprar novos?!» Sobre esta situação, tragicamente vivida por tantas almas solitárias e sensíveis, obrigados a atirar para o lixo sacos da Bertrand, da FNAC, da Pó dos Livros e da Trama e a trocá-los por sacos de supermercado e de mercearia, só consigo registar o seguinte: amigos, amigas, animais de estimação, os livros podem ser aperitivos. Um tipo pode depenicar um parágrafo aqui, outro acolá. Há até livros que só estão na estante para a gente passar por eles e reler vezes sem conta os seus bizarros títulos ou então mirar as suas belas e musculadas lombadas. Não, os livros não são como a papa. Nem sempre são para comer até ao fim. E, também por isso, nunca são demais.