Terça-feira, Novembro 10, 2009

444. quando é forma


"Eu pessoalmente protejo a minha solidão. A solidão só é negativa quando é forma de isolamento, quando não é escolhida, mas imposta pelo ambiente."

Frase de Paolo Giordano, na passagem pela Feira do Livro de Porto Alegre. Veio lançar "A solidão dos números primos", um excelente romance. Doutorando em Física, 27 anos, prepara o segundo livro.
"A solidão..." chega aos cinemas no próximo ano. Giordano assina o roteiro.
O trecho acima é desta mísera entrevista.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

443. e quando finalmente

Da série “Macanudo # 2“, do desenhista Ricardo Liniers (Zarabatana Books). Mais aqui e aqui.
Via Desculpe a Poeira, de Ricardo Lombardi. Clique na figura para ampliar.




Domingo, Novembro 08, 2009

442. muro

Os 20 anos da Queda do Muro de Berlim merecem que você:

- Leia a excelente reportagem de Paulo Nogueira, na Época desta semana.

- E veja, se ainda não o fez, dois filmes de primeira linha:



Sábado, Novembro 07, 2009

441. vou ali ver sobre amor

Cidades despertam muitas coisas. Eu aprendi a amar Lisboa, há várias razões. Inclusive os defeitos. Um deles: alguns filmes demooooram a chegar aqui.
Ah, sim. De outros amores e cidades. Era sobre isso que ia falar. Houve o primeiro, do trailler mais abaixo. E agora o segundo, o primeiro vídeo. Não sei, talvez uma espécie de relação se estabeleça. Vou lá encontrar, ver no que dá. Hoje é sábado e vou ver New York, I love you.






Ah... E ainda fica a Feist, em inglês e francês, ao final de Paris, Je t´aime. Sim, é sábado. É por isso.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

440. jornalismo, COP 15 e um pouco do que pode ser

"É preciso penetrar a superfície organizada da atualidade". A frase está na página 26 de "Linguagem dos Conflitos", de Manuel Chaparro (Minerva Coimbra, 2001). Chamei-a aqui para iniciar um post sobre dois temas importantes da semana na área do jornalismo sobre meio ambiente. O primeiro deles é a quase votação das medonhas alterações no Código Florestal Brasileiro, ou maldades, como bem classificou Miriam Leitão em seu blog. Votação não houve, menos mal por hora. Pode-se aumentar pressão pelo dano menor. Consegui-lo é outra história. Chamaram atenção, porém, comentários divulgados em vários blogs, de que a  cobertura jornalístíca (ou da presença jornalística lá) fez peso diante dos ruralistas. E isso é bom.

Nos falta tanto torcer as "aparências dos acontecimentos", para usar outra expressão do livro do professor Chaparro. E isso tudo bate em um ponto que me parece primordial. A boa cobertura, explorar contextos e contradições. É tudo. Basta. É fazer jornalismo em meio as dezenas de vozes institucionalizadas, as que banalizam conceitos e apregoam suas "verdades verdes", muitas vezes mais obscuras do que verdes, lançam mão de conceitos fáceis, batem nas teclas escorregadias da sustentabilidade e da responsabilidade social, como se grafar essas palavras em discursos ou textos bastasse. E o pior é que tem bastado. E como tem.

Só até aqui posso ser chamado de utópico. Mas queria mesmo era falar do ponto de vista prático. Não só porque esses temas me interessam acadêmicamente falando. Se pudermos ser, assim, "Jornalismo", não perder a capacidade de criar debate, é o que vale.

O segundo trend topic da semana é a COP 15, a Conferência das Partes em Copenhague (7 a 18 de dezembro), e as discussões sobre mudanças globais. Tenho acompanhado no Twitter alguns perfis dedicados ao assunto, no mesmo passo em que estou de olho em especiais que o Guardian, o Público e o Planeta Sustentável, da Editora Abril, lançaram sobre o encontro mundial. Enquanto escrevia esse post, chegou, via Twitter, um comentário de Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa, com o título "Conferência de Copenhague: o que falta ao noticiário". Toca em um ponto que ontem me tomou um tempo, que foi a cobertura tímida do encontro de ministros de onde saiu a não-posição do Brasil sobre uma meta definida de redução de emissões. Oportunidade perdida, burocracia e algo mais. O Estadão fala um pouco no Editorial de hoje. 

Em relação ao encontro da Dinamarca, será fundamental uma cobertura qualificada e independente. Há promessas que engatinham, mas o peso precisa ser maior, a ponto de "incomodar". Como sempre, os prenúncios de fracasso desse tipo de Conferência ganham eco. Só que dessa vez não dá. Não há  outra chance dessa magnitude, inclusive do ponto de vista econômico, se esse for o argumento. E há sérios indicativos de que as atenções vão se voltar para o que dirá o Brasil. Se o oficial ameaçar não dizer nada, que pelo menos nos jornais não  tenhamos estampada, todos os dias, a apatia oficialiesca que sempre ameaça imperar.

É, com toda certeza, uma cobertura difícil. Mas nela está toda a esperança boa de um "certo poder". O de cumprir o papel. E ele bastará. Eu costumo acreditar, ou torcer, não sei. Talvez tenha de esperar sentado. A frase lá do início, todavia, repito para encerrar: "É preciso penetrar a superfície organizada da atualidade".

Domingo, Novembro 01, 2009

439. portugal 60 dias

Esta coisa que passa cada vez mais rápido, segundo dizem. Vamos a agarrar como podemos, a guardar o que vale, transformando em algo nosso cada pedaço que ele se deixa tirar.
Esta coisa que corre sem nos pedir licença.
O tempo.

Reuni alguns pedaços do meu aqui. "Portugal - 60 dias" é uma compilação pessoal, sem pretenções maiores, de imagens e uns poucos textos sobre esse belo lugar.


Quinta-feira, Outubro 29, 2009

438. um bairro e um lugar para você

"O Bairro" em última apresentação em Porto Alegre. Então, anote aí: 05.11.2009, 20h30, no Teatro Barbosa Lessa, Centro Cultural Érico Veríssimo.
Aproveite que é tempo de Feira do Livro na capital gaúcha para sair de lá com todos do Gonçalo Tavares debaixo do braço.
Por hora, curta o vídeo:


Terça-feira, Outubro 27, 2009

437. ainda sintra

Mais no Flickr. Ou Orkut.




436. sintra e o sol a ir


Sexta-feira, Outubro 23, 2009

435. Van Gogh tem um blog

Feito pelo Van Gogh Museum. Com as cartas dele.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

434. tarefas

"O retrato está tão longe do fim quanto eu quiser, ou tão perto quanto eu decidir".

Saramago, em Manual de Pintura e Caligrafia

Terça-feira, Outubro 20, 2009

433. bom dia, chuva


Segunda-feira, Outubro 19, 2009

432. nu artístico



Sábado, Outubro 17, 2009

431. um outonar aos poucos

* Parque de El Retiro, Madrid, España

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

429. um futuro a voar

Nós com os os pés no chão e uma nuvem de livros a nos rodear. Google quer colocá-los todos lá. Eu me vi curioso com tudo isso, mesmo que boa parte das discussões sobre tecnologia eu acabe por acompanhar como expectador/usuário apenas. Tento ler quem anda com isso na cabeça para me situar. Alguns caminhos apontados me animam. Nessa coisa do "futuro dos livros" (melhor seria pensar junto no futuro da leitura), chamaram-me atenção as promessas de Luis Collado, do escritório Google em Madri, em entrevista ao Público.
O Google está a desenvolver um modelo mais "aberto", porque não depende nem de um formato, nem de uma tecnologia particular (como Kindle, da Amazon e o Reader, da Sony). Até onde minha vista alcança, isso parece melhor. Eles se propõe a resolver as questões de formato, adaptações e, com isso, permitir a leitura no computador, dispositivo de leitura, TV e celulares com acesso à web. Por óbvio, ganham com isso. Se significar mais acesso, mais leitura e preços muito mais convidativos ao leitor, já terá valido a pena começar.
Um nuvem de debates vem por aí. Talvez alguns raios ou trovões. Editores, direitos. Céu limpo no final. Por hora, Isabel Coutinho explica o que já está. Leia por aqui.

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

430. das mais variadas formas imagináveis

Lehgau-Z, multi e gráfico artista (segundo ele por impulso), meu profe-parceiro-comparsa, vem aí com o seu curso de HQ em Porto Alegre.  Vai ser de 20 outubro a 8 de dezembro, toda tarde de terça-feira. E na Koralle (sinta o nível). E adorei a definição do curso. Leia a seguir. Depois, pronto, clique aqui.

A HQ ou História em Quadrinhos é, sem dúvidas, uma das artes e formas de comunicação mais populares do mundo. Sua história é longa e sólida. Ao contrário das belas artes, que se baseiam na exclusividade de uma criação individual, a História em Quadrinhos moderna tem a ver com reprodução em massa, especializando-se em fazer com que tantas pessoas quanto possível entendam uma mensagem ou uma ideia das mais variadas formas imagináveis. Ou seja, a História em Quadrinhos é uma forma de arte muito poderosa, apesar de ainda ser bastante subestimada. A HQ é, em essência, em oposição a certas outras artes, uma arte comercial com a intenção clara de fazer dinheiro.

Terça-feira, Outubro 13, 2009

428. alan imagina imenso

Aquela melhor definição de talento, vou falar dela então, é a de uma pessoa que te diz "oi" e entrega um universo nas tuas mãos. E tu perdes o ar com a sensação, por um instante, de que ela levou um instante para trabalhar aquilo tudo. Aí tu acordas porque sabe que não foi assim. Assim talento, de criar com dedicar. Saber fazer escolhas. Aprendi com outro amigo talentoso que quem escreve, quando é recompensado, é pelas escolhas que fez. Alan escolhe imenso. Imagina muito. Alan está lá, em trabalhar cuidadoso, enquanto achamos que só está a viver. E em um momento chega no teu e-mail aquele mundo todo.

Feliz em ver o projeto Mar do Poeta por filmar. Talento, Alan. Imenso.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

427. lançamento: fim das coisas velhas

Eu leio menos poesia do que se recomenda. Tenho consciência desse desvio de conduta. Mas eu gosto de poesia. Não de todas. Gosto de algumas, de alguns poetas. Prefiro com açúcar de menos e possibilidades de mais. Aí gosto mesmo. Transcrevo em algum lugar, anoto a referência, recomendo. E tenho interesse em quem poeta sem rimar. Quem rima sem se entregar. Ainda que goste da rima (aqui a frase poderia continuar com “tenho que confessar”, mas já seria deveras bipolar).

O fato é que, pela experiência anterior, vim compartilhar uma sugestão de boa leitura. Já sei que assim será com o novo livro também. O escritor Marco de Menezes lança seu terceiro livro de poesias, "Fim das Coisas Velhas" (Editora Modelo de Nuvem). Agora domingo, 18 de outubro, 17h, no Café Literário da Feira do Livro de Caxias do Sul. Confira o convite completo aqui.

Update: Lançamento dia 04 de novembro, às 20h, na Livraria e Sebo Do Arco da Velha, em Caxias do Sul.


Terça-feira, Outubro 06, 2009

426. passar a ser hoje por muitos amanhãs

A seis de outubro de 1999 Amália Rodrigues nascia para ser sempre. A célebre fadista fechava o que hoje é seu passado e passava a ser hoje por muitos amanhãs. Dez anos depois, está presente em todo canto. Exposta, recantada, homenageada por toda gente, Amália Rodrigues tem seu nome grafado em cada parede de Lisboa.

Um belo palco lota esta semana para ver um ambicioso projeto, do qual reproduzo um canção aqui. Uma recriação pop, grande produção. Amália Hoje, chama-se assim o cd-dvd-agora espetáculo, nos faz ouvir uma outra Gaivota (para lembrar da canção onipresente no verão português). Vozes de Sônia Tavares, Fernando Ribeiro e Paulo Praça, idealização de Nuno Gonçalvez.

Alguém maior que a sua vida, dizem certos jornais. Imagem forte, contradições, como esse "país bipolar", publica uma revista. Outros textos marcam o fim do século XX português a seis de outubro de 1999. Fim de século não é passado. Fim de século é porque mais vem. Ontem passa a hoje, amanhã indica sempre. Eu, que ainda pouco percebi, me atrevo a dizer que, dado o que ouvi, Amália continua mesmo a acontecer. Dez anos depois. Mais muitos por sempre. Melodia viva em cada hoje que se canta.


425. a experiência no exterior


Atendendo ao pedido do colega Cristóvão, um pequeno relato do início da experiência em Lisboa no Blog do PPGCOM. Tá lá.

424. congressos

Os Congressos científicos são uma parte da imensa fatia boa da vida acadêmica. Você expõe sua pesquisa e, no mesmo passo, conhece outras pesquisas, descobre bibliografia, um pesquisador, outro evento. Claro, conhece novos lugares também, jogo rápido por vezes, mais tempo em outras.

No final de setembro participei do CICOM, em Braga, norte de Portugal, evento internacional promovido pela Universidade Católica Portuguesa. Apresentei um apanhado de uma discussão que deve estar presente na tese. O título da comunicação foi Saber e conflito no jornalismo sobre meio ambiente.  Braga é convidativa e simpática. E tem história por todo lado. Resquícios do tempo romano, quando chamava-se Bracara Augusta, mais de 40 igrejas, um centro acolhedor e duas Universidades (a outra é a do Minho). Tivemos excelentes companheiros brasileiros na viagem e a recepção do Renné França, que está no seu estágio sanduíche por lá.

Hoje recebi o aceite de um outro Congresso. Eu e o Fred Tavares apresentaremos o texto Los proyectos editoriales y sus temas en la configuración de estrategias periodísticas y mercadológicas en el periodismo de revista no II Congreso Internacional de la Asociación Española de Investigadores de la Comunicación (AEIC 2010). Será em fevereiro, em Málaga, sul da Espanha. Mais trabalho pela frente até fechar o texto completo.

Sábado, Outubro 03, 2009

423. música em seu dia


Quatro locais da cidade foram reservados neste sábado para espetáculos do Música nas Praças, a comemoração lisboeta para o Dia da Música. Corais, orquestras, violinos, pianos, crianças, adultos. Belas misturas visuais e sonoras, música tradicional, clássica, contemporânea. Toda gente esteve lá. Escolhemos dois dos locais, o Largo São Carlos e as Ruínas do Carmo (foto), para acompanhar. Este último, pela arquitetura, fazia a alma levitar.

Ao olhar para cima, a impressão era de que a melodia saia das pedras persistentes da Igreja de outrora e, pela sua beleza e resistência, pareciam estar mesmo a cantar alguma coisa. Ao fechar os olhos, a sensação era de ser conduzido pela música para algum lugar acima do chão. A acústica das ruínas por certo ajudou. Lá, à tarde, foi possível ouvir um cuidadoso apanhado de canções tradicionais portuguesas, como a belíssima Acordai, de Fernando Lopes Graça. Ao cair da tarde, a noite foi recebida com um espetáculo que levava seu nome. Canções em diversas línguas e vozes inacreditáveis. Luzes apenas no palco, foram essas mesmas vozes que iluminaram aquelas paredes seculares e fizeram inerte a platéia de número.

Antes, metade da tarde, no Largo São Carlos, havíamos assistido ao concerto da "Sinfonieta de Lisboa" e, a seguir, ao "Pequenos Violinos da Metropolitana", do Conservatório Metropolitano de Lisboa, talentosos no percurso de Brahms, passando por Vivaldi, Händel até H. Arlen e a multicor Over the rainbowm. Música nas Praças foi um belo presente para um sábado especial.

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

422. trinta dias depois do primeiro gelado

Um mês atrás, na mesma hora em que hoje (9 da manhã) comecei a escrever este post, estava sentado no Aeroporto de Lisboa a tomar sorvete. Foi a resposta ao primeiro questionamento que me fiz quando saí com as malas, no terminal de desembarque: “Tá, e eu faço o quê agora?”. Tomar sorvete foi uma ótima resolução. Fiquei me divertindo com o emaranhado de caras e sotaques diferentes a chegar e sair daquele não-lugar. E a olhar para os seis meses que teria pela frente. Depois foi só levantar e ir para o hotel.

Eram seis meses. Já agora são cinco. Haviam me dito que se toma um mês para tudo ser em efetivo. Para entrar em um tal "ritmo", para estar adaptado. E, sim, faltavam as aulas, que iniciaram ontem. E faltava poder usar a biblioteca da universidade e tudo mais, agora já posso. O primeiro mês, podem antever, fechou-se com tudo no lugar devido. Todos esses dias tiveram o sabor imaginado da chegada e apropriação. De tomar consciência de que, mesmo em provisório, moro aqui. O tempo de criar a dita rotina, porque o estágio sanduíche nos pede um intenso período de estudo. É um tempo muito curto, em verdade, diante de tantas possibilidades. É preciso saber aproveitar. Por isso, inclusive, todo bolsista tem um plano de atividades a cumprir, o que é excelente para dar os rumos na hora dos passos iniciais. Há muito que observar e ler, é preciso absorver o diferente, o que complementa e, também, afirmar as bases da pesquisa iniciada no Brasil. Desse suco depende muita coisa depois, no ano que resta de escrita da tese.

Vim satisfeito marcar aqui esse “um mês”. Por e-mail disse a alguns que talvez tivesse tido sorte demais, tudo correu além do que pude imaginar, nas minhas mais entusiasmadas elaborações. Devo dizer que tive sempre as melhores recepções, onde quer que fosse. E isso me fez desenvolver uma imagem profundamente positiva desse canto do mundo. As burocracias não foram nada burocráticas, logo achei um canto para me instalar, vi coisas, “percebi” a cidade, sua geografia e seus hábitos, conheci pessoas, participei de um Congresso de Comunicação. Vencidos esses trinta dias iniciais, é como se muito tempo tivesse passado porque já é natural estar em Lisboa.

Bom mesmo é saber que ainda tem um tanto de tempo pela frente. E que posso seguir. Tudo tem sido muito inspirador, seja em termos de pesquisa, por "toda gente que cá está", pelo ambiente acadêmico. Justaposto, os olhos se enchem da paisagem, dos lugares, do país e sua cultura, das histórias, elementos que me levam a (a)riscar nos meus caderninhos também.

Agora os sorvetes (ou gelados) não tem mais a carga existencial do primeiro.

Adiante.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

421. achares
















"Não se encontra o que se procura mas o que se encontra."
Miguel de Sousa Tavares

* Na foto, trecho de "O guardador de rebanhos - poema XX", de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa), na calçada que leva da Torre de Belém ao Padrão dos Descobrimentos.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

420. tantos livros aí para ler. porque é que andas sempre a comprar novos?

Vim com um livro de um autor português para a viagem. Não li pois a cultura inútil da TV a bordo no voo TAP me consumiu. Chegando aqui, lógico, fui conferir as livrarias. E como escolher? Tirando os conhecidos no Brasil, há dezenas de boas promessas literárias e, pelas capas, compraria vários, algo impossível. Para matar a primeira sede, cedi ao apelo de Budapeste. Uma edição de bolso, da Leya, por meio da qual passei a admirar o Chico Buarque escritor. Deixei para os dias seguintes a tarefa de "perceber" um pouco de literatura portuguesa contemporânea. Os de sobrenome Tavares (não parentes!) estão em alta. Há o Gonçalo, a quem já admiro "imenso" desde certo tempo. Além, a grande onda é um novo texto de Miguel Sousa Tavares, jornalista, propagandeado aos quatro ventos. Me pareceu interessante. Para começar, de fato, minha opção foi por este inusitado título: “Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas”, o terceiro livro de Ricardo Adolfo, nascido em Luanda, com sérias críticas positivas. Tem sido uma boa leitura. Pausada agora em função de leituras para a aula que inicia nesta quinta. Retomo no final de semana.

Na busca por referências, decidi pela imprensa especializada e devorei hoje a edição deste mês da revista Ler. Capa: Miguel de Sousa Tavares, em irônica e interessante entrevista sobre sua escrita, livros e histórias de vida. E uma baita alfinetada em alguns conterrâneos. Deve ser uma das próximas leituras, apesar da preferência pelos não lidos do Gonçalo que devem entrar na fila. Mas, por hora, sigo no Ricardo Adolfo.

A Revista (Ler está no Twitter) traz bons colunistas, entre eles a escritora Inês Pedrosa, em uma reflexão sobre a falta de interesse em promover a literatura surgida das mãos femininas. Mas o que me fez começar esse texto foi uma coluna que está ao final da revista. No rodapé de uma das últimas páginas da publicação aparece um texto bem-humorado sobre os compradores de livros e a incompreensão da qual muitos são vítimas. Antes de reproduzir, um aparte. O “saco do Minipreço” a que se refere o texto é a sacolinha de uma das mais populares redes de supermercado por aqui, junto com o Pingo-doce. Ambos permitem aos estudantes bolsistas viver e comer muito bem por muito pouco. Mas voltando ao papo sobre literatura, o texto, assinado por Nuno Costa Santos, na coluna Provedor dos Leitores da Ler número 83:


O que é que trazes aí no saco do Minipreço?
Livros. Trago livros. Algum problema? Sim, o leitor vive hoje uma espécie de melancólica clandestinidade. Falo do leitor que gosta, que tem o hábito e a extravagância de comprar livros - não o leitor que espreita obras alheias no metro da Avenida. Aquela cada vez mais rara figura que passa pelas livrarias como quem passa pelo café da esquina e que, uma, duas vezes por mês, traz uns volumezinhos para casa - de livralhada recente ou antiga. Porque lhe apetece. Porque alguém um dia vai ficar com eles. Porque é importante subsidiar os escribas e as suas sogras. Mas o leitor, esse leitor, chega aos seus aposentos e tem muitas vezes de apanhar com a frase indignada no cultivado focinho: «Tantos livros aí para ler! Porque é que andas sempre a comprar novos?!» Sobre esta situação, tragicamente vivida por tantas almas solitárias e sensíveis, obrigados a atirar para o lixo sacos da Bertrand, da FNAC, da Pó dos Livros e da Trama e a trocá-los por sacos de supermercado e de mercearia, só consigo registar o seguinte: amigos, amigas, animais de estimação, os livros podem ser aperitivos. Um tipo pode depenicar um parágrafo aqui, outro acolá. Há até livros que só estão na estante para a gente passar por eles e reler vezes sem conta os seus bizarros títulos ou então mirar as suas belas e musculadas lombadas. Não, os livros não são como a papa. Nem sempre são para comer até ao fim. E, também por isso, nunca são demais.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

419. crônicas de portugal: o navio, a torre e o cavaleiro



Um título para pensar sobre alguns ícones desse lugar repleto de histórias. Lugar no qual, quando as portas se abrem, tem sempre um passado novo a se descobrir. Viagens, reinados, mares. Muito ainda por vir.

Domingo, Setembro 13, 2009

418. lisboa, uma manhã de domingo



As imagens acima são da Praça do Comércio, em frente ao famoso Tejo. Foi o meu primeiro passeio mais turístico, digamos assim. É que no meu primeiro final de semana em Lisboa fui ser turista em meio a centenas de outros. Cheguei aqui em 2 de setembro, ao final das férias deles. E isso significou experimentar a Torre de Babel em todas as ruas e pontos históricos, apesar da garantia de entendimento entre falantes. Um dos primeiros slogans que vi sobre a cidade foi “Lisboa: cidade da tolerância”. Deve ser mesmo. A quantidade de estrangeiros, mesmo passadas as férias oficiais, surpreende. Há uma grande comunidade de não portugueses a viver em Lisboa, o que torna a cidade ainda mais interessante. Há sempre “novas gentes a chegar”, novos movimentos.

Esse ar cosmopolita, penso eu, deve ser ainda maior em outras capitais européias. Mas o que já experimentei aqui foi muito interessante. Oportunidades como comentar sobre a beleza de um jardim com um israelense e acabar falando do Brasil (todos querem saber mais sobre esse país imenso), dar informações ao grupo de ingleses ou alemães que está ao seu lado e, além disso, ser atendido quase sempre em inglês ou rir da impressão de que você fala um português de estrangeiro, na visão de alguns. O dono do apartamento onde moro disse que eu pareço francês. E me apresentou assim em alguns lugares, onde sempre recebi elogios ao meu português quase sem sotaque, até revelar que era brasileiro.

Essas pequenas diversões cotidianas deram um pouco o tom desse tempo inicial, temperando os primeiros dias de encaminhamentos, resoluções e instalação. Muito mundo, muita gente, muito a se ver e entender. Gentes, vestes, cores, comportamentos, o “portuguese way of life” nos shoppings, aos domingos, a curiosidade, as sandálias e o fotografar frenético dos turistas. Muitos rostos, muitas línguas misturadas, sons e roupas impossíveis de identificar num primeiro momento. Era tanto estrangeiro por essas ruas que, até me habituar ao delicioso “falar nativo”, tinha a impressão de não haver ninguém a falar português, exceto eu. Agora há, já “percebo” tudo e "metro" não tem mais acento para mim, pelo menos até fevereiro.

Cabe ainda comentar que o verão aqui é estupendo. Há um botão que alguém aperta nas manhãs de domingo e os dias passam sem nenhuma nuvem no céu e com um sol intenso. Não precisa nem olhar para fotografar, é só apontar a máquina e clicar. Belo verão, bela recepção. Com esse setembro pode vir o frio que for, já me abasteci.

417. da permissão de estar


A cidade. Eu. Lisboa e sua luz a receber quem aqui aporta. Eu a aportar. Ela já em mim. Cedo, recebo, ela concede. Vir e estar. E ficar. Deixar-se levar; deixar o só chegar para estabilizar, fincar pé por um tanto. Lisboa e eu. Sintonia autorizada. Dois. Lisboa me toma e nela eu sigo. Me abre seus braços, seus caminhos, estende convites, oferece possibilidades. Lisboa e seu horizonte limpo. Eu e meus olhares. A cidade e seu aceite. Lisboa, todo céu. Eu, todo seu.

Sábado, Setembro 12, 2009

416. ao cair da tarde




























"As recordações começam ao cair da tarde
com o hálito do vento a erguer o rosto
e a escutar a voz do rio..."

Trecho de "Paisagem VIII", de Cesare Pavese (Itália, 1908-1950), no jardim da Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

415. cursos da vida

Daqui, de onde estou, posso ver além do que vejo. Posso ver um quase mar, ver futuros, posso amanhãs. Daqui, de onde estou, percebo um vento de descoberta, algo me empurra o olhar, o lugar me pede que siga, que venha, que vá. Dias muitos, muito tempo, muita terra. Daqui, de onde estou, vejo um rio que não é propriamente um mar. Mas muito imenso, feliz imenso. Me convida a realizar, eu vejo. Daqui, há um horizonte e nele estou. Amplo, aos meus pés, ondas em ir e vir. O Tejo. Um rio, os planos, o que vejo. Tudo a inundar um mundo aberto num instante, como quando os olhos retornam do seu piscar. Daqui, de onde estou, posso ver o Tejo. E mais, além, acima do que vejo.

Em Lisboa.

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

414. you already know how this will end



DeVotchKa - How It Ends

Segunda-feira, Agosto 24, 2009

413. ya no soy yo

Algumas vezes tentei explicar o que é este tempo antes de embarcar. Creio que em quase todas não me fiz entender. É um tempo muito próprio. Uma pessoa me disse que era como ser um holograma. Pode ser. Um tanto fugidio, apesar da intensidade do momento. Outro tanto compartilhado, apesar do ar pessoal. Entre muito, em meio a tanta coisa, meu foco em algum pouco. Linha reta. Lembro, a todo momento, da canção do Drexler que copiei a seguir.

Isso que você não está vendo sou eu; outras perspectivas. Ou sou eu, mas já fui. Por isso falo pouco, estou não estando em todo lugar. E onde estou, talvez se veja só uma sombra. Um eco, "desafiando las leyes del tiempo". Tem um futuro em mim, por isso não posso estar presente.

Jorge Drexler - Eco
Esto que estás oyendo
ya no soy yo,
es el eco, del eco, del eco
de un sentimiento;
su luz fugaz
alumbrando desde otro tiempo,
una hoja lejana que lleva y que trae el viento.
Yo, sin embargo,
siento que estás aquí,
desafiando las leyes del tiempo
y de la distancia.
Sutil, quizás,
tan real como una fragancia:
un brevísimo lapso de estado de gracia.
Eco, eco
ocupando de a poco el espacio
de mi abrazo hueco…..
Esto que canto ahora,
continuará
derivando latente en el éter,
eternamente….
inerte, así,
a la espera de aquel oyente
que despierte a su eco de siglos de bella durmiente..
Eco, eco
ocupando de a poco el espacio
de mi abrazo hueco…..
Esto que estás oyendo  
ya no soy yo…



Segunda-feira, Agosto 17, 2009

412. a lembrança futura

“É preciso ver Lisboa no tempo exato de um suspiro. Vê-la inteirinha à primeira luz do amanhecer, por exemplo. Ou vê-la completa com o último reflexo do sol sobre a rua da Prata. E depois chorar. Porque, ainda que seja a primeira vez que a vemos, temos a impressão de já ter vivido ali todo tipo de amores truncados, desenlaces violentos, ilusões perdidas e suicídios exemplares. Você caminha pela primeira vez pelas ruas de Lisboa e, tal como ocorrera ao poeta Valente, sente a cada esquina a lembrança difusa de já tê-la dobrado”.

Enrique Vila-Matas, no segundo número da revista Serrote.